Quase toda incorporadora já contratou projetos em BIM. Bem menos contrataram gerenciamento de projetos em BIM. A diferença entre as duas coisas costuma aparecer tarde, quando a obra encontra aquilo que nenhum escritório viu sozinho.
Contratar modelos não é o mesmo que contratar coordenação. Um é entregável, o outro é processo.
Este guia responde o que uma gerenciadora de projetos em BIM faz, o que ela entrega, em que ponto do empreendimento ela entra, quanto do resultado depende dela e como medir se o dinheiro está voltando. É o material que a maioria das empresas gostaria de ter lido antes de assinar o primeiro contrato de projeto.
O que é gerenciamento de projetos em BIM
Gerenciamento de projetos em BIM é a função que coordena todas as disciplinas de um empreendimento dentro de um processo único, com regras definidas antes do primeiro modelo, e que responde pela consistência do conjunto até a liberação para a obra.
A palavra que carrega o sentido é conjunto. Cada projetista responde pela própria disciplina e faz isso bem. Ninguém, por contrato, responde pelo encontro entre elas. É exatamente nesse encontro que a obra costuma parar.
O gerenciamento ocupa essa cadeira vazia. Ele não substitui o arquiteto, o estrutural ou o instalador. Ele garante que os três estejam resolvendo o mesmo edifício, na mesma versão, com a mesma informação e no mesmo prazo.
Projetista responde pelo seu projeto. Gerenciadora responde pelo conjunto dos projetos. São responsabilidades diferentes, com entregáveis diferentes, e nenhuma das duas cobre a outra.
O que a gerenciadora faz que o projetista não faz
A pergunta aparece em toda primeira reunião: se cada escritório já entrega em BIM, por que preciso de mais alguém? Porque as tarefas abaixo não estão no escopo de nenhum deles.
Note que nada na coluna da direita está errado. O projetista faz o que foi contratado para fazer. O problema é supor que a soma das partes produz um todo coerente sem que alguém trabalhe nisso.
Os cinco entregáveis que definem o serviço
Proposta de gerenciamento sem entregável nomeado é intenção, não escopo. Estes são os cinco itens que tornam o serviço verificável.
- 1Plano de Execução BIMO documento que fixa regras, responsabilidades, níveis de detalhe e formatos antes do primeiro arquivo. Sem ele, cada escritório modela do seu jeito e a federação não fecha.
- 2Modelo federado por cicloA reunião de todas as disciplinas em um único ambiente, refeita a cada ciclo, que é onde as incompatibilidades ficam visíveis.
- 3Relatório de interferências priorizadoNão a lista bruta que o software cospe, e sim o recorte do que de fato impacta custo, prazo ou execução, com responsável e prazo por item.
- 4Ata de decisãoO registro do que foi decidido, por quem e quando. É o documento que evita a discussão circular três meses depois.
- 5Aceite de liberação para obraO parecer formal de que o pacote está coerente e pode virar canteiro, com as pendências conhecidas listadas.
Se um desses cinco não aparece na proposta, vale perguntar quem vai fazê-lo. A resposta costuma ser silêncio.
Quando a gerenciadora entra no empreendimento
Quanto mais cedo, mais barato. Essa frase é repetida à exaustão e mesmo assim a contratação costuma acontecer tarde, já com projeto legal aprovado e escritórios trabalhando em ritmos diferentes.
O momento ideal é antes da contratação dos projetistas, porque é aí que as regras ainda podem ser escritas em vez de negociadas.
- 1Antes de contratar os projetistasCenário ideal. As regras entram no edital e no contrato de cada escritório. Ninguém precisa refazer nada depois porque todo mundo começou alinhado.
- 2No início do estudo preliminarAinda muito bom. Dá para estruturar o processo enquanto as decisões de partido arquitetônico estão sendo tomadas.
- 3No anteprojetoFunciona. Alguma reconfiguração de modelo costuma ser necessária para viabilizar a federação.
- 4No executivoPossível, com expectativa ajustada. Aqui o serviço vira contenção de dano: encontra o que estiver errado, mas boa parte das decisões já está travada.
- 5Com a obra iniciadaÚltimo recurso. A gerenciadora vira apoio à execução e o custo de cada correção já está no seu pico.
Como medir se está funcionando
Serviço de gestão que não é medido vira sensação. Estes indicadores são simples de acompanhar e dizem mais do que qualquer relatório extenso.
| Indicador | O que observar | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Interferências por ciclo | A curva deve cair ciclo após ciclo | Curva estável ou subindo perto da entrega |
| Tempo de resolução | Dias entre apontar e resolver um item | Itens abertos há mais de dois ciclos |
| Retrabalho de modelo | Quantas vezes a mesma área é remodelada | A mesma região voltando três vezes |
| RFI vindas da obra | Perguntas de campo sobre projeto | Volume alto no primeiro mês de obra |
| Aderência ao cronograma | Entregas no prazo por disciplina | Uma disciplina sempre atrasando o ciclo |
| Decisões sem dono | Itens em ata sem responsável | Ata que só registra e não resolve |
O indicador mais honesto de todos é o volume de perguntas que a obra manda para o projeto no primeiro mês de canteiro. Ele mede exatamente o que ficou por resolver.
O que gerenciamento de projetos em BIM não é
Três confusões aparecem com frequência e cada uma leva a uma contratação frustrada.
Não é rodar clash detection. A detecção automática de colisões é uma ferramenta dentro do processo, não o processo. Uma lista de dez mil colisões sem priorização não é um entregável útil.
Não é fiscalização de obra. Gerenciamento de projetos acontece antes do canteiro e trata de projeto. Gerenciamento de obra é outra função, em outro momento.
Não é desenhar. A gerenciadora não produz a disciplina de ninguém. Se ela começa a modelar no lugar do projetista, o papel de árbitro se perde.
Fale com quem faz isso todo dia
Se você está montando o processo de projetos de um empreendimento e quer entender onde o gerenciamento entra no seu caso específico, vale uma conversa técnica antes de qualquer proposta.
Traga o estágio atual do seu empreendimento e as disciplinas já contratadas. A gente aponta o que dá para organizar agora e o que já é contenção de dano. Falar com a Bononi
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre gerenciamento de projetos e coordenação de projetos?
Coordenação é uma das atividades do gerenciamento. Coordenar é fazer as disciplinas conversarem tecnicamente entre si, resolvendo interferências e definições comuns. Gerenciar inclui isso e acrescenta prazo, escopo, controle de versões, rito de decisão e a responsabilidade formal pela liberação do pacote para obra. Toda gerenciadora coordena. Nem todo coordenador gerencia.
Preciso de gerenciamento BIM se meus projetistas já entregam em BIM?
Sim, e é justamente esse o cenário mais comum. Cada escritório entregar um modelo bom da própria disciplina não garante que os modelos conversem entre si. Entregar em BIM é sobre a ferramenta usada. Gerenciamento é sobre o processo que integra as entregas. São camadas diferentes e uma não substitui a outra.
Em que fase devo contratar a gerenciadora?
O melhor momento é antes de contratar os projetistas, porque assim as regras de modelagem, os formatos de entrega e os prazos entram nos contratos de cada escritório desde o início. A partir do anteprojeto o serviço ainda funciona bem. Depois do executivo iniciado, ele passa a operar mais como contenção de dano do que como prevenção.
Gerenciamento BIM serve para obras pequenas?
Serve, com escopo proporcional. O critério não é metragem e sim quantidade de interfaces. Um empreendimento pequeno com muitas disciplinas, subsolo, sistemas prediais complexos ou prazo apertado tem mais interfaces que um edifício grande e repetitivo. É o número de encontros entre disciplinas que justifica o serviço, não a área construída.
Quanto custa o gerenciamento de projetos em BIM?
O valor depende do número de disciplinas envolvidas, da complexidade das interfaces, da duração do desenvolvimento e do estágio em que o serviço começa. Não existe preço por metro quadrado que faça sentido, porque dois empreendimentos com a mesma área podem ter esforços de coordenação muito diferentes. Qualquer proposta séria começa pela leitura do escopo e das disciplinas já contratadas.
A gerenciadora assume a responsabilidade técnica dos projetos?
Não. A responsabilidade técnica de cada disciplina permanece com o profissional que a assina. A gerenciadora responde pelo processo de coordenação, pela consistência entre as disciplinas e pelos entregáveis do próprio escopo, como o plano de execução, os relatórios e o parecer de liberação.
Conclusão
Gerenciamento de projetos em BIM não é uma camada extra de custo. É a única função do empreendimento que responde pelo espaço entre as disciplinas, que é justamente onde nascem os problemas mais caros da obra.
A decisão prática é simples: alguém precisa ocupar essa cadeira. Ou ela é ocupada por contrato, antes da obra, ou é ocupada no canteiro, com o cronograma correndo e o custo de correção no seu ponto mais alto.