Toda construtora sabe que erro de projeto na obra custa caro. Quase nenhuma sabe dizer quanto custou o último.
O motivo é que a planilha registra apenas a camada mais visível: o material refeito e as horas de quem refez. Essa é a menor parte da conta.
Este artigo abre as quatro camadas de custo de um erro descoberto no canteiro e mostra, passo a passo, como montar a conta com os números do seu próprio empreendimento. Não é uma estatística de mercado para citar em reunião. É um método para você chegar ao seu número.
Por que o mesmo erro custa mais tarde
Existe um princípio conhecido no setor, popularizado pela curva de MacLeamy: a capacidade de influenciar o resultado de um empreendimento é máxima no início e despenca ao longo do tempo, enquanto o custo de qualquer mudança faz o caminho inverso.
A mesma decisão que custa uma reunião na fase de estudo custa uma parede demolida na fase de obra.
A lógica é física, não financeira. No início, alterar significa mover uma linha em um modelo. No canteiro, alterar significa desfazer algo que já existe, comprar de novo, esperar entrega, remobilizar equipe e reprogramar as atividades que dependiam daquele trecho.
As quatro camadas de custo
Quando alguém diz que a correção custou determinado valor, quase sempre está falando só da camada 1. As outras três existem, são reais e raramente entram na conta.
A camada 4 é a mais silenciosa e a mais duradoura. Um shaft que precisou mudar de lugar na obra deixa uma cicatriz no edifício por toda a vida útil dele.
Como montar a sua conta em cinco passos
O exercício abaixo funciona para qualquer empreendimento e usa apenas dados que a sua empresa já tem.
Um exemplo aritmético
Os valores abaixo são inventados de propósito, para mostrar a mecânica da conta. Substitua cada um deles pelos números da sua obra.
No exemplo, a camada que a planilha registra representa menos de um quinto do custo real da ocorrência. Esse é o ponto do exercício.
Quando a discussão sobre investir em coordenação de projetos usa apenas a camada 1 como referência, a coordenação sempre parece cara. Com as quatro camadas na mesa, a conversa muda de lugar.
O que reduz esse custo antes da obra
Nem todo erro é evitável. A maior parte dos erros caros, porém, tem a mesma origem: informação que existia, mas não estava no mesmo lugar na hora da decisão.
Descubra onde está o seu custo recorrente
Se você fez a conta acima e o número incomodou, o passo seguinte é entender qual etapa do seu processo de projetos está deixando esses itens passarem.
Perguntas frequentes
Qual o erro de projeto que mais gera custo na obra?
Não é o erro mais grave, e sim o erro descoberto mais tarde. Em termos de tipo, as interferências entre estrutura e sistemas prediais costumam liderar, porque envolvem furação, passagem, altura livre e pé direito, e porque a correção quase sempre exige aprovação do calculista. Interferências que aparecem depois de a estrutura estar executada são as mais caras de todas.
Compatibilização de projetos se paga?
A conta correta compara o custo do serviço com as quatro camadas de custo dos erros evitados, e não apenas com o material refeito. Quando a comparação usa somente a camada visível, o serviço parece caro. Quando inclui parada de frente, efeito no cronograma e decisões de emergência, a relação costuma se inverter com poucas ocorrências evitadas.
Como saber se o meu processo de projetos está gerando retrabalho?
Três sinais são bons termômetros: o volume de perguntas que a obra manda para o projeto no primeiro mês de canteiro, a quantidade de vezes que a mesma região do edifício é remodelada, e a existência de decisões tomadas em reunião que ninguém consegue localizar por escrito depois. Os três indicam informação circulando fora de um processo.
Dá para calcular o custo de um erro que ainda não aconteceu?
Não com precisão, mas dá para estimar com base no histórico. Se você calcular o custo real das ocorrências dos últimos empreendimentos usando as quatro camadas, chega a um custo médio por ocorrência da sua operação. Esse número, multiplicado pela frequência típica, é uma estimativa defensável para decidir sobre investimento em coordenação.
O custo de mudança realmente cresce tanto ao longo do tempo?
Sim, e a
razão é operacional. No início, mudar é editar informação. Depois da compra, mudar envolve contrato e prazo de fornecedor. Depois de executado, mudar envolve desfazer trabalho pronto, refazer, e reprogramar tudo que dependia daquele trecho. Cada etapa acrescenta um tipo novo de custo que não existia na anterior.
Conclusão
O custo de um erro de projeto na obra não está na correção. Está no tempo perdido em volta dela e na qualidade da decisão que foi tomada sob pressão.
Faça a conta com os seus três casos mais caros do último empreendimento. Esse número, e não uma estatística genérica, é o argumento que decide quanto vale investir em coordenação antes do canteiro.
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Um caso isolado pode ser azar. Refaça a conta com as três ocorrências mais caras do último empreendimento. O padrão que aparecer é o seu custo recorrente de falta de coordenação, e é ele que deve ser comparado ao custo do serviço.
- 1Escolha um erro real já resolvidoPegue uma ocorrência recente e fechada, de preferência com registro de RFI ou ata. Precisa ser um caso concreto, não uma média.
- 2Some a camada 1 pela mediçãoMaterial, mão de obra, equipamento e descarte. Esses números estão no diário de obra e nas medições do período.
- 3Meça os dias de frente paradaDa descoberta até a liberação da solução. Multiplique pelo custo diário daquela frente, incluindo encargos e improdutividade da equipe deslocada.
- 4Verifique se estava no caminho críticoSe estava, multiplique os dias de atraso pelo custo diário indireto do empreendimento: canteiro, administração local, equipamentos alugados e custo financeiro.
- 5Registre a restrição criadaAnote em uma linha o que a solução de emergência tirou do edifício. Nem sempre há valor monetário, mas essa linha muda a conversa da próxima reunião de projeto.
- Camada 1: correção direta
- Material desperdiçado, material novo, mão de obra da demolição e da refação, equipamento e descarte. É a única camada que costuma aparecer na planilha.
- Camada 2: parada e remobilização
- O tempo entre descobrir o problema e ter a solução aprovada. A frente de serviço para, a equipe é deslocada, e depois precisa voltar. Improdutividade não vira nota fiscal, mas é dinheiro.
- Camada 3: efeito no cronograma
- Se o trecho afetado está no caminho crítico, o atraso se propaga. Aluguel de equipamento, canteiro, administração local e custo financeiro do capital seguem correndo durante o atraso.
- Camada 4: qualidade da decisão
- Solução resolvida às pressas no canteiro raramente é a melhor solução. Ela vira uma restrição permanente do edifício, com efeito em manutenção, desempenho e às vezes em área vendável.
Corrigir no modelo custa tempo de projetista. Corrigir no canteiro custa tempo de obra. A diferença entre os dois não é percentual, é de ordem de grandeza.